Cidade de papel é uma cidade inventada por cartógrafos e inserida em mapas, a fim de que não sejam copiados. Se alguém reproduz um mapa com essa localidade fictícia, fica fácil de pegar o plagiador no pulo.
Existem vários casos famosos de cidades fictícias que só vieram ser descobertas como tal após pesquisadores e pessoas curiosas irem ao local determinado no mapa, para descobrir que ali não havia nada. Até o Google caiu nessa pegadinha, ao apresentar no serviço Maps uma ilha chamada Sandy, que havia saído dos mapas oficiais em 1979, mas constava no registro de várias cartas náuticas desatualizadas, que provavelmente podem ter sido fonte para a gigante da internet. Clique aqui para saber mais sobre esse mistério.
Mas e quando essa cidade é parte da sua cartografia afetiva, e está localizada dentro de você?
É assim que eu me sinto ao olhar para esta foto que eu fiz durante uma de minhas caminhadas. Eu entendo que perceber uma cartografia afetiva precisa que a gente esteja imerso no mundo que estamos vivendo, e não falo isso em termos de espaço, mas do momento, do agora, de ontem e do que você deseja adiante.
A cartografia afetiva não se resume aos aspectos físicos da cartografia tradicional, ela envolve os encontros aos quais devemos estar abertos. Ela se dá no espaço comum: aquele que ultrapassa o sentido de localidade, aglutinando marcos temporais, referências sociais e culturais. Esta imagem resume tudo o que sou e desejo para mim.
Eu moro em uma pequena cidade de papel interiorana do litoral nordestino, escrita e dirigida por Jorge Amado e Ariano Suassuna. Nascida dos livros que li, dos sóis que tomei na cabeça e das pessoas que conheci e me tocaram o coração ao longo da vida, é pra lá que me retiro quando busco inspiração. Ela está incrustada numa região onde coqueiros, cana-de-açúcar e outras espécies frutíferas convivem com lendas contadas de pai para filho.
Se eu pudesse dar uma pista de onde ela está no mapa brasileiro, eu diria com certeza que ela estaria localizada entre Pernambuco e Paraíba. Lá ainda residem aqueles queridos que já se foram, mas que se encontram eternizados no aroma da pamonha doce com galinha guisada que só a minha Tia Maria fazia, e que hoje encontro resquícios desse saber na mão de minhas primas.
Lá a gente dança ciranda na beira do mar todos os sábados, religiosamente, enquanto o sol se despede pra noite chegar. Lá eu almoço com Dona Irene, que me convida pra provar sua caldeirada, e levar uma travessa da receita como um mimo pra Mãe Cidinha, a quem eu gosto de escutar sentado no chão sagrado, durante as tardes de domingo.
Chegar nesse lugar é uma experiência única: nos despedimos do progresso travestido de asfalto da estrada estadual para pegarmos um caminho de terra entre muralhas de cana. O labirinto verde é altivo, e nos impõe respeito. Desconfio até que não se deve parar o trajeto por bobeira, sob pena de chamar a atenção de Comadre Florzinha, que odeia barulho de motor ou algum falatório mais alto.
Entre curvas e aclives, entre medo, respeito e êxtase perante a imensidão verde e o cheiro de cana moída, são cerca de trinta minutos após deixarmos a estrada estadual. O auge do trajeto é a última ladeira, cujo cume revela uma aquarela de Debret que nos espera na descida: uma estrada com casinhas coloridas rodeadas de mangueiras, cajueiros, bananeiras, pitangueiras, pitombeiras e palmeiras. Já os coqueiros disputam entre si e a matriz da praça pra ver quem é a mais alta da cidadezinha. Eles parecem senhoras esguias e altíssimas, a olhar a cidade de cima, protegendo-a. Lá no fundo, a linha do horizonte azul do mar.
Faz calor, mas é um calor que te faz se sentir vivo, se misturando ao aroma de mormaço doce dos cajueiros espalhados pela praça. De vez em quando o Oceano Atlântico consegue mandar sua brisa percorrer as ruas e misturar a maresia com o aroma das flores que se cultivam por lá.
É incrível como o sol faz até as cores frias ficarem mais vivas: o azul que tem lá é refrescante e intenso. O amarelo que bate lá não te deixa esquecer de prestar reverência e gratidão à luz. O vermelho que chega às nossas pupilas tem um quê de adocicado, passando longe do tom de sangue, e se aproximando mais de um tom floral, que adorna, seduz e convida.
Lá não sou amigo do rei, nem de ninguém importante, até por que nobreza ali é o pé descalço, é a saudação que nos traz pertencimento, são as rugas que desfilam bordados de vida na pele, para combinar com os fios de prata que adornam as cabeças maternas. Riqueza ali é o que se faz com as mãos, é o que se oferece à mesa, que pede por mais cadeiras e sorrisos.
Tenho pensado muito em voltar pra esse lugar. Na verdade, estou lá nesse exato momento em que escrevo. E estarei lá novamente quando eu decidir sair a esmo com minha ratoeira (apelido dado por uma professora à minha câmera compacta) para caçar imagens bonitas como se fossem fragmentos desse mosaico de referências.
A minha cidade de papel é a minha musa bucólica urbanista sensorial utópica. Ela me alimenta e eu a regurgito em quadros, esculturas, tapetes, e outros objetos dos quais me cerco onde eu estiver. Encontro pedacinhos dela aqui e acolá, feitos pelas mãos de artistas que vou conhecendo pelo caminho.
Ela vive dentro de mim e eu preciso fazer dela um exercício diário de alumbramento para que eu não perca o entusiasmo nem a curiosidade pela vida. Às vezes a gente esquece de visitar esses lugares e nem percebe onde e quando nos perdemos. Eu não posso me perder.
É bom voltar pra mim.


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