Dito estas palavras mentalmente, como se alguém fosse redigi-las. Mas provavelmente elas irão se perder na vastidão dos meus pensamentos antes que eu caia no sono. Na verdade, eu nem tenho a intenção de enviá-las para ninguém, e pasmem – são nestes momentos de covardia que nos encontramos mais verdadeiros, mais puros e honestos. Quando resolveríamos praticamente todos os nossos problemas. Mas é difícil fazer com que essas palavras saiam da nossa boca e vejam a luz do dia, não é mesmo? Se você estivesse aqui, eu teria que mentir. Mentir pra mim mesmo, mentir pra proteger o pouco que ainda restava de nós, mentir pros planos que estavam na fila de se concretizarem mais à frente — a presença do outro é sempre uma exigência de teatro, quando não aceitamos que a ausência se instalou no sofá, visível demais para ser ignorada.
Eu sempre gostei da frase “ame ou se mande”. Me soa firme, radical, até. Como se fosse uma escolha fácil, como se estivesse numa prateleira para eu pegar ou não. Mas no fundo da alma, onde o silêncio dói, a gente sabe que não se escolhe amar. O amor é um estado de graça ou uma náusea. E se ele não é o susto de se estar vivo no outro, então é nada. É apenas o cansaço de ser dois quando se é, essencialmente, só.



E agora, não há mais cansaço. Somente espaço. A luminária da mesa mudou para um tom de espera: o que antes aquecia e inspirava uma pausa pro café, deixou de ser cura para ser vigia. É uma luz que não aquece, ela apenas expõe o que sobrou, como aquele assento de palha que ainda guarda a sua forma. E o seu cheiro. A ausência mais presente, mais materializada, pelo menos em termos sensoriais. E sem mais o cansaço, sem palco, sem orgulho, sem nada, passeio minhas mãos pelo meu corpo enquanto teu cheiro ainda me inebria. Não tem ninguém olhando. Não tem vozes na minha cabeça me aconselhando a pensar em outra coisa, nem me diminuindo por ainda me permitir deixar que a memória da pele assuma minhas rédeas e minha busca por aquele momento onde o espasmo contraía meus músculos, me deixava sem voz, fechava meus olhos, com a boca aberta, sem ar, ofegante, suado, pingando, encharcando a pele e a cama.
Ao final, volto para cá. De onde na verdade nunca saí, mas essa é uma sensação que todo mundo deve conhecer. Que lugar é este, senão um museu de intenções abandonadas? Qualquer objeto de uso agora passa a ser uma relíquia de uma era que terminou há vinte e quatro horas. E agora, o que faremos com todo este espaço?
Esperar.
Esperar que a luz mude. Que o amarelo de hospital dê lugar ao azul do crepúsculo, para que a escuridão possa, finalmente, esconder o que a claridade insiste em vigiar, em apontar, em lembrar.
“Ame ou se mande”, eles dizem. A gente até consegue se mandar, difícil é arrancar o que guardamos por dentro. Não dá. A gente só segue fingindo deixar o sentimento guardado numa caixa longe dos olhos, enquanto espera que o tempo faça a sua parte. Existir, nestas circunstâncias, é um exercício de contorno. É aprender a não bater nas arestas de uma saudade que se materializa em cada canto da sala, sob a guarda de uma luz que se recusa a apagar.
Mas ela vai se apagar.
E depois outra luz acenderá.


Deixe um comentário